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Educar, Vigiar e Punir

Caminhando pela rua deparei-me com um grupo de crianças que se deslocava do que me pareceu ser a unidade principal de uma escola para o que imagino ser o seu ginásio ou algo parecido. Havia cerca de vinte crianças que caminhavam numa fila mais ou menos organizada e que contavam com um professor à frente, dois ao centro do grupo, um atrás e uma longa corda de proteção esticada por mais dois adultos e acompanhada por um terceiro. Escapar daquele “cerco” pareceu-me realmente impossível. Qualquer um concordaria que “transportar” crianças por uma rua movimentada é algo que requer muita responsabilidade e que, nesse sentido, a solução do colégio foi bastante engenhosa.
Ao chegar em casa, porém, fiz uma pequena conta: vinte crianças, divididas por sete funcionários, para um descolamento de cerca de quinhentos metros, dá uma média de três crianças por funcionário. Mesmo que contasse com apenas quatro funcionários, a conta ainda seria de cinco crianças por funcionário. Fiquei imaginando então que no lugar de produzir um cordão de isolamento, que não só estabelece à força, um limite para a interação da criança com o percurso, mas também aliena o trajeto de uma unidade à outra, em relação à atividade pedagógica a ser realizada na unidade de destino, tivéssemos duplas de professores que transformassem o trajeto num breve passeio com os alunos, que ao longo do breve percurso - que seria mais breve, é bem verdade, visto que duas crianças de mãos dadas a um adulto tendem a se deslocar mais rápido do que vinte, cercadas por um aparato de segurança quase militar e por um cordão de isolamento – o professor pudesse perguntar sobre a semana dos alunos, pudesse comentar as práticas da semana anterior, saber do que o aluno mais gostou, do que não gostou, as razões porque gostou ou não gostou, o que aprendeu, o que teria a ensinar. Nossos modelos de formação não são, contudo, modelos de convivência, são modelos de controle, é fato que por maior interesse que um aluno tenha em aprender, seu medo de ficar reprovado será sempre maior. O conhecimento, nos ensina Foucault, é um instrumento de domínio e poder. Ficamos tristes quando um bom aluno, “esforçado”, não obtém nota suficiente para aprovação, nos orgulhamos de reprovar os maus alunos e nos sentimos ultrajados quando o aluno que “não deu a mínima para a nossa disciplina”, para nossas aulas, obtém, sem muitos esforços, um resultado excelente na avaliação. A prova, sob esse ponto de vista, é um instrumento de justiça e controle. Deve separar os melhores dos piores, deve evidenciar e recompensar o bom aluno. Uma nota é também um instrumento de prestígio e esse poder está nas mãos do professor. A corda que cercava as crianças me fez pensar sobre minhas próprias estruturas de poder, sobre os mecanismos de controle e sobre as vaidades da “posição” de “quem ensina”. Sempre fui muito vaidoso por pensar que meu conhecimento poderia servir a alguém, aos poucos, com a mesma vaidade, confesso, fui percebendo o quanto as pessoas podiam aprender com a minha ignorância. Porque, no fundo, no fundo, “ninguém ensina ninguém, ninguém aprende sozinho, os homens aprendem em comunidade” (parafraseando Paulo Freire). Decidi então me lançar ao desafio de aprender com quem sabe menos do que eu e a permitir que aprendam comigo principalmente aquilo que não sei. Não disponho de nenhuma chave especial para isso, não sei existe algum método, mas acredito que reduzir o controle e investir nas possibilidades de convívio seja uma boa maneira de tentar. Criar essas ocasiões - acredito - deve ser uma obsessão para o In_Comum Coletivo.

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