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O Processo Criativo É uma Coisa de Louco

Imagem retirada do site: https://www.upcyclist.co.uk/2015/08/wearable-art-by-viktor-rolf/

Quando alguém "perde a razão" numa briga, está louco ou age de maneira absurda, frequentemente
dizemos dessa pessoa que ela está "fora de si”. A tradição ocidental elegeu a razão como sendo o
mais íntimo, mais próprio da existência de uma pessoa. É supostamente por meio da razão que o
homem pode operar um verdadeiro conhecimento das coisas e é também pela razão -  pelo menos
desde Descartes - que o homem experimenta de modo mais profundo sua existência - “penso, logo,
existo”.

É nesse sentido que sair de si se torna o correlato da perda da autoconsciência e, por extensão,
da razão.

Todos nós queremos cada vez mais empreender nosso “autoconhecimento" e, sobretudo,
adoramos ter razão, não importa a respeito do que.
De outro lado, porém, a expressão “pensar fora da caixa” tornou-se muito corrente nos meios
acadêmicos, bem como no mundo dos negócios, sobretudo, quando se fala de inovação ou criatividade.
O curioso dessa expressão é que as pessoas mais conservadoras, menos dadas a experimentação e
menos “abertas” às novidades são capazes de empregá-la e, o mais inusitado, jurar estarem
empreendendo um grande esforço para romperem com um modelo qualquer de pensamento
tradicional e, de modo "eficiente" e sincero, “pensar fora da caixa”.

O problema desse desejo de pensar fora da caixa é que as pessoas tenham a impressão de
que a caixa seja um lugar, uma coisa que as envolve e as faz pensar de modo conservador e que,
portanto, se elas ficarem talvez mais “antenadas” a tudo quanto está fora da caixa, podem conseguir
pensar diferente.

A verdade cruel é que não importa o quanto alguém se afaste do seu lugar original, não importa quão
elevado seja o cume de montanha que consiga escalar, nada poderá fazê-lo pensar "fora da caixa”.
Sua "caixa" lhe seguirá para onde quer que vá. Porque a caixa não está fora de nós, nos envolvendo.
Nós somos a nossa própria caixa. Construída sob a forte ação da nossa cultura, dos nossos valores,
dogmas, medos, seguranças e inseguranças, maior ou menor disposição para o erro, crenças e
certezas, nós próprios é que somos a maior e mais eficaz barreira para um pensamento que nos
desloque e nos recoloque “fora do eixo”.
Quem deseja segurança, quem tem medo de errar, não tem condições de investir efetivamente no
imprevisível circunscrito à palavra criação. Para criar é preciso permitir-se invadir por sonhos,
devaneios e ilusões que nos possibilitem olhar para as coisas e compreendê-las (quer dizer, inventá-las)
de uma maneira diferente da maneira como nós as recebemos num primeiro momento.

Criar não é isso? No dizer do poeta - "aprender novas palavras e tornar outras mais belas" (Drummond).
Não é aí que reside a semente de toda criação?

O problema do esforço de “sair da caixa” é que essa saída não pode ser empreendida por nenhuma
técnica ou instrumento "moderno". Trata-se de uma saída estética, trata-se de uma aesthesis, um
permitir-se desarmar pelo mundo. Nossa crença na racionalidade moderna nos fez acreditar que um
sujeito “que estivesse fora de si", estaria na verdade louco. Pode até ter algo de muito maluco no
processo de criação, isso até pode ser verdade, todavia, não há como sair da caixa, sem que já se
esteja fora de si.
O RésDesign pretende oferecer com seus cursos ocasiões para esse tipo de deslocamento,

Saiba mais:
10 e 11 de novembro, Rio de Janeiro.
Produzo Mundos, Visto Poesia em SP
30 de novembro e 01 de dezembro, São Paulo.

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